segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Molecagens de Rua
























Nas duas últimas colunas abordei os temas músicas e nome de ruas, e essa abordagem me fez pensar na rua de minha infância. Já textualizei em outra coluna e produção, que a poeticidade da minha rua talvez tenha me influenciado o desejo de ser escritora. Rua Contos Amazônicos, rua de fazer e viver poesias: "Provavelmente, (para os outros), o fato mais poético de minha vida\Seja ter me criado na rua Contos Amazônicos\Subúrbio, periferia de São Paulo.\ Mas não é assim que defino minha rua. \Rua de fazer e viver poesias\Rua de brincar de corda\Emprestando minha mãe\Que tinha o dom de transformar coisas em brinquedos\\Eu crescia...\Brincava de vivo ou morto\Sem preocupação com a violência\(essa não existia)\\Subia em árvores\Sonhava-as edifícios\Nunca me preocupei em ser chamada maria moleque\ Ser criança é ser sobrecomum\\Não, não sinto uma saudade nostálgica da infância\Vivia ...vivi-a\E as vezes ainda encontro comigo\\Ainda moro nos contos amazônico!"

     Penso nesse poema enquanto ouço a música A LISTA, de Oswaldo Montenegro, e ao ouvir as frases imperativas e os questionamentos: "Faça uma lista de grandes amigos\ Quem você mais via há dez anos atrás\ Quantos você ainda vê todo dia\ Quantos você já não encontra mais...\ Faça uma lista dos sonhos que tinha\ Quantos você desistiu de sonhar!\ Quantos amores jurados pra sempre Quantos você conseguiu preservar(...)\ Quantos amigos você jogou fora ¿"
      Eu tenho a sorte de conviver com amigos de infância; amigos de infância, não, amigos da vida, porque eles foram crescendo comigo. Lembramos com saudades das nossas brincadeiras de infância na rua: "queimada", "rouba mamona", a bicicleta emprestada, a casa imaginária na árvore, o elástico, a corda, a festa junina da rua, em que o critério da formação dos pares era o tamanho, e tínhamos que dividir as paqueras. Nos dias de verão, sentávamos em frente às casas, com nossas cadeirinhas especiais, com as preguiçosas, com a cadeira macarrão, ou simplesmente na calçada. Passávamos horas conversando, contarolando as músicas que eram sucesso, lendo poesias, trocando caderninhos de recordação. Hoje, trocamos recordações e continuamos fazendo história com novos integrantes, filhos, sobrinhos, afilhados... Ainda nos contos amazônicos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Os nomes das CPIs


Em tempo de tanta corrupção (e investigação?) o que não faltam são comissões parlamentares de inquérito, as CPIs. Mas você, caro leitor, já parou para pensar no nome das CPIs ou Operações de investigação? A mais famosa e atual delas, tem sido a “Operação lava-jato¨, relacionada ao desvio e à “lavagem” de dinheiro envolvendo a Petrobrás. Como pode-se observar, o nome é metafórico, mas está relacionadoa algum item do crime.  Geralmente, esses nomes tornam mais fáceis a identificação da população e a divulgação pela mídia. Essa característica de nomear figurativamente as investigações, não é algo da atualidade, décadas atrás já ocorria. Veja alguns exemplos: 

       “CPI dos Anões do Orçamento” (1993): investigou o desvio de dinheiro do Orçamento da União e levou à cassação  (e não caçação, ato de caçar continuamente) de seis parlamentares. Os envolvidos ficaram conhecidos como “anões do orçamento” pois envolvia principalmente parlamentares com pouca projeção política, considerados “anões do poder”.

         A “Operação arca de Noé” (2002) investigava o jogo do bicho em Mato Grosso.

         A “Operação Big Brother” (2005) usou o nome do  famoso  reality show que também usava a sigla BB, assim como o Banco do Brasil, instituição investigada.    

        A “CPI dos Sanguessugas”(2006) foi uma das comissões que envolveram mais parlamentares: 69 deputados e três senadores. Os suspeitos teriam ligação com uma quadrilha que desviava dinheiro destinado à compra de ambulâncias. Nenhum deles foi punido. O nome alude a uma técnica antiga de purificação do sangue, ou à exploração, daí a expressão “ele é um sanguessuga”

       A investigação “Banco Imobibliário”(2007) investigava quadrinha que falsificava notas. O nome aludia às notas falsas do jogo famoso  na década de 80.
       Existem outras investigações. Essas foram apenas algumas para aguçar a curiosidade sobre a língua portuguesa e quem sabe, também, o olhar cidadão. Quem se põe a interpretar, se põe a pensar e a criticar. Até a próxima!

sábado, 22 de agosto de 2015

LENDO A MÚSICA QUE EU OUÇO



Às vezes não percebemos a poeticidade da música, as mensagens inspiradoras, ou pior, não percebemos quão cheia de palavrões ou de mensagens depreciativas elas podem se apresentar e, para o bem e para o mal, vamos repetindo e, de tão incorporados no discurso, tornam-se discursos comuns e vice-versa.
Ouço pessoas dizerem: “tenho saudades das músicas dos anos 90”. Músicas cujas letras, se me...
lembro bem, eram criticadas. Talvez, sob o discurso dessas mesmas pessoas, haja músicas atuais com letras tão mais depreciativas que, em comparação, as anteriores tornam-se mais poéticas ou aparentemente menos eróticas. Ocorre-me isso ao pensar na música Robocop gay, do grupo Mamonas Assassinas, sucesso em minha adolescência, e em algumas músicas atuais que abordam sexualidade e são cantadas e “dançadas” por crianças que mal pronunciam as palavras por inteiro. Consideravam a tal música dos anos 90 pobre, mas eu me rebelava: “pobre não é, pois é cheia de proparoxítonas, mantém uma métrica, as palavras foram selecionadas com coerência e coesão”. Explico: em todos os versos, apresentava como final uma palavra cuja sílaba forte (tônica) era a terceira, contando-se de trás para frente. Métrica corresponde ao padrão de sílabas, ou seja, o mesmo número de emissão de voz, que mesmo na leitura, associada à tonicidade das palavras, dá ritmo ao texto.
Quanto ao enredo, a música dos Mamonas traziam palavras que compunham coerentemente a temática escolhida e, nisso sim, talvez, permeie a polêmica: “concordo ou não com o que e com o como é dito?” E essa reflexão deve ocorrer sempre, em qualquer produção, à luz não de preconceitos mas de respeito às pessoas e às coisas. As situações aludidas no texto, fiéis à ou recriações da realidade, preferencialmente, eis minha opinião, além de diversão, devem trazer conhecimento. Como isso é feito, que recursos linguísticos são utilizados, qualificarão a música como um texto bem escrito, ou não. Hoje e no futuro.

sábado, 11 de julho de 2015

SE ESSA RUA FOSSE MINHA, EU MANDAVA NOMEAR


Caro leitor, já pensou no que há por trás do nome: da sua rua, do seu bairro, do seu estado, do seu país? E não estou me referindo aos aspectos legais que implicam a oficialização de um nome e o legitimam, mas nos aspectos culturais retomados implícita e explicitamente....
Um dos mais importantes linguístas, ou seja, estudiosos da língua, Saussure, tem uma das premissas assim resumidas “o signo é arbitrário”, ou seja, o nome de algo, em sua origem, não tem nenhuma relação com a coisa nomeada. Em grande parte isso é verdade, pois se compararmos um nome em várias línguas constataremos diferenças, demonstrando: o nome não é a coisa. “Borboleta”, por exemplo, em inglês, é “butterfly”, que significaria literalmente “manteiga voadora”. Mas, ao mesmo tempo, o nome (signo linguístico) tem uma motivação e associação histórica, geográfica, revelando uma “maneira de ver o mundo”. Ou ainda, de homenagear, descrever ou registrar “na” e “a” cultura.
“Brasil”, que ganhou esse batismo português, por causa da árvore “pau-brasil”, era “Pindorama”, em um dos idiomas indígenas dos povos que aqui habitavam, e significava “terra das palmeiras”. Temos muitas cidades com o radical “ita”, em referência ao mineral “pedra”; uma delas “Itapecerica”, vizinha de nós. Nossa região, “Interlagos”, tem esse nome por ser “entre lagos”, entre a Bilings, nome em homenagem ao engenheiro, e Guarapiranga, que significa, em tupi, segundo alguns dicionário, “lamaceiro, barreiro”e“guará vermelho”.
O predomínio de nome de santos remonta à tradição católica, herança portuguesa. Instigante mesmo é quando trocam o nome, mas os falantes fazem sua escolha, referindo-se ao nome antigo, fazendo-o presente. A Avenida Robert Kennedy, durante muito tempo era ainda chamada de Avenida Atlântica, precedida pelo adjetivo “antiga”, voltando a ter oficialmente esse nome em 2010. Interessante também quando a nomeação segue um padrão:
O bairro Vila Natal tem predominantemente como nome de ruas frutas e o termo “natal”; o Jardim Santa fé e Campinas têm como nome dos logradouros as constelações. Gosto de nomes que aludem à natureza, como Jardim Sabiá, Parque das árvores, mas tenho medo de que um dia sejam apenas referência a algo em extinção, registro do que houve, não do que há em abundância, principalmente em relação ao nome “Interlagos”. Cuidemos!

segunda-feira, 23 de março de 2015

Pare ao sinal de um parônimo!


Caros leitores, já comentei na coluna a importância de se estar atento à grafia correta. A nova norma ortográfica trouxe mudanças em muitas palavras, algumas fáceis de interiorizar, como a exclusão do trema, a perda do acento gráfico em ditongos paroxítonos "éi", "oi". Os corretores ortográficos atualizados são uma ótima ferramenta para auxiliar na correção, todavia não resolvem as divergências ortográficas que são também divergência de sentido. O nome técnico é PARÔNIMO: "palavra com escrita parecida, mas significado diferente".

Ou seja, é preciso tomar cuidado com a grafia, pois a palavra existe e pode não ser percebida como erro pelo redator ou pelo corretor ortográfico. O uso inadequado de parônimos ocasionará uma imagem negativa do redator, além de caracterizar-se como erro ou descuido. Por isso esteja atento e consulte livros, dicionários e listas com exemplos. Que tal pensar no uso desses vocábulos e tentar encontrar sinônimos ou expressões equivalentes? "Docente"é professor, "Discente"é aluno; "águas fluviais" são "águas dos rios", "águas pluviais" são "águas das chuvas". E os termos a seguir? "A", "à", "há"e "ah"; "absorver" e "absolver"; "ascender" e "acender"; "acento" e "assento"; "asso" e "aço"; "assoar" e "assuar"; "brocha" e "broxa"; "caçado" e "cassado"; "cavaleiro" e "cavalheiro"; "cerrado" e "serrado"; "paletó" e "palito" ; "cessão", "sessão" e "seção"; "chá" e "xá", "chalé" e "xale";"cheque" e "xeque"; "cível" e "civil"; "comprimento" e "cumprimento"; "despensa" e "dispensa"; "eminente" e "iminente""mal" e "mau"; "proeminente" e "preeminente"; "russo" e "ruço"; "secretária" e "secretaria"; "tráfego" e "tráfico"...
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