A PALAVRA QUE SE DIZ NA PRÁTICA
Muitas palavras, segundo a Pragmática, ou seja, uso real e
prático, tem uma utilização
diferente do significado original e etimológico,
ou pelo que seria o sentido mais perto do literal ou de um sinônimo (embora
não exista sinônimo perfeito como demonstramos na coluna anterior). Muitas
vezes, quando se diz algo é por que se acredita que o contrário, o não-dito
evocado também exista, mesmo que não
seja de forma consciente, pois há opacidade pelo tempo ou pelo uso pragmático, como afirmamos no início desse artigo.
No contexto médico tenho, várias
vezes, ouvido a indagação: "Mas
por que você?", como se houvesse um julgamento implícito, geralmente
acompanhado da explicação "Você não merece!", como se outras pessoas merecessem, e assim a
doença fosse castigo/sentença e não uma questão biológica que nem sempre é
consequência de uma atitude direta da pessoa acometida. Compreendo que a fala
indica empatia por quem a ela é dirigida, mas não me deixa de ocorrer o
pensamento: "Haverá sempre alguém que achará a doença injusta, pois,
talvez, esse não seja o critério."
Há outras expressões até mais
divertidas em um primeiro momento: hoje ser idoso tem como epíteto "melhor
idade", mas não necessariamente seja,
pelo contrário, talvez seja uma associação, para não dizer
"campanha discursiva", a justificar que a velhice tem sido saudável
e, portanto, a aposentadoria deva ser adiada.
Outras questões, no entanto,
nascem por retomar fatos históricos, levando a reflexões, quiçá a debates e embates. Além do restaurante chamado Senzala, alvo de
críticas e vandalismo, há um motel de
mesmo nome, que traz na caracterização
dos tipos de quarto, termos do contexto
da escravidão aqui no país. Impossível não falar dessa página da história que
se reflete até hoje em preconceitos e
conceitos e não pensar nos argumentos de quem quer amenizar o que houve, descrevendo outros episódios de escravidão e
até mesmo esclarecendo que os que aqui chegavam escravizados tinham sido
vendidos por outros africanos, como se
essa ocorrência e a constatação de que o homem explícita ou implicitamente
escraviza, cerceira, subjuga o outro ser
humano minimizasse o fato. Como sintetiza a expressão: "um erro não
justifica o outro", ou seja, agir da mesma maneira, não anula o erro.
Claro que tudo que é polêmico resgata dois
preceitos que têm sido muito usados, cabendo neles várias conotações: "liberdade de expressão" e seu
quase antagonismo "politicamente correto". Tem sido muito difícil
definir o que sejam, sem, paradoxalmente ferir a liberdade de expressão e
o politicamente correto!