sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Informação, conhecimento e relação via internet

É inegavel a internet tem trazido um ilimitado número de informações, assim como possibilitou a aproximação de pessoas e contextos diferentes, mas algumas reflexões devem ser realizadas. Fala-se muito de informações, e a primeira diferenciação deve ser: “informação não é conhecimento”. Ler vários textos, nem sempre é estar lendo conteúdos corretos, por isso a fonte deve ser confiável e o site ser autoridade naquilo que publica, pois qualquer um pode criar um blog, site ou divulgar em redes sociais. Já conhecimento é a relação e correspondência que se faz entre os textos lidos e entre  informações e conhecimentos já acumulados. É uma leitura mais ativa e participativa, pois o leitor critica o texto, dialogando com o que lê. Sem deixar de citar o acesso a reportagens recentes e antigas, que permitem ver o curso (ou o discurso) da história; o acervo de livros e textos fictícios e não, acadêmicos e opinativos, dentre outros; o acesso a cursos on-line, a vídeos sobre vários temas de produções pessoais a profissionais, passando pelos filmes comerciais e clipes musicais. Dessa forma, a internet possibilita a congruência  de mídias e uma gama de possibilidades informação e conhecimento, mas também pode ser usada como  entretenimento, passatempo, ocupação ou desperdício do tempo.

Quanto à aproximação de pessoas, isso é bem relativo, se analisarmos profundamente. As pessoas expõem partes de sua vida em redes sociais e projetam uma imagem de si. Quem as acompanham assistem a um "big brother" diário e eterno, (ou no mínimo duradouro, já que pode ser replicado) e, por assisti-lo, é convidado a seguir, curtir e compartilhar, mesmo que não saibam porque estão conectados como “amigos”.
Mas, no outro esteio, como dissemos, a internet aproxima pessoas geograficamente distantes e, se elas são próximas na vida real, essa forma de comunicação torna-se uma extensão e forma de manutenção. Ressalta-se, ainda, a validade daqueles relacionamentos que nascem nas redes, transpassam os bytes e tornam-se belas e verdadeiras histórias de amor, amizade e até mesmo de histórias de comunidades/grupos que se formam por causas e ideais comuns.
Décadas passadas discutia-se se a tevê era boa ou má, hoje o foco da discussão é a internet. Ela, como toda ferramenta que possibilita a comunicação e a conexão com o mundo, não é boa nem má. Se para a tevê tem-se o controle remoto; na internet, as teclas, o mouse, a seleção dos endereços do que ler, postar, clicar são escolhas do internauta consciente.

Sinônimos? Nem sempre


SINÔNIMOS? NEM SEMPRE!


Há associação mental de que existam sinônimos perfeitos: que algumas palavras possam ser utilizadas em lugar de outras sem perda de sentido, como resume a expressão: “ digam a mesma coisa, com termos diferentes”. Essa é uma associação errada, pois embora pertençam a mesmo contexto, apresentam matizes, senão divergências nos conceitos. Elencarei aqui uns exemplos.
É comum, no discurso contemporâneo, a palavra “educação” como a responsável por todos os problemas e, por isso, no mesmo esteio, a responsável pela solução dos problemas humanos. De fato, educação compreende aprendizagem ou aquisição dos valores, dos ritos e dos saberes sociais, incluindo as etiquetas de condutas entre as pessoas; por isso, “educar” compete a todas as esferas da sociedade, embora seja associado (apenas) à escola. Por ser abrangente e permear todas as relações humanas, “educar “ também perpassa as ações na escola, mas de maneira sistematizada, estabelecida, selecionada por reflexões e escopo construídos por agentes e profissionais a quem esse papel é atribuído, validado, limitado e avaliado com bases legais.

A transmissão e desenvolvimento de saberes e conhecimentos diferentes, visualizando as possibilidades históricas, culturais existentes é o papel da Educação Formal, institucionalizada e é “escolarização”. Apresentemos uma tentativa de definição para o termo: “escolarização” é, pois, o desenvolvimento técnico e científico para aquisição, aprimoramento e domínio de saberes que podem, senão ter sido vivenciados fora da escola, ser aplicados fora dela, a partir da gama de possibilidades que a escola mostra - com a dimensão reflexiva da diferença entre senso comum e senso crítico; da diferença e da confluência entre saber individual e saber coletivo; entre conhecimento empírico e conhecimento científico, acadêmico e institucionalizado.

Há congruências entre escolarização- que prioriza o coletivo- e educação, que foca o indivíduo (em destaque a educação familiar). Não deve haver alternância ou sobreposição por se considerar equivalência: há conjunção aditiva, mesmo em casos de internato e de escolarização domiciliar. Uma prioriza o coletivo; a outra, o indivíduo.

Outros dois termos utilizados equivocadamente são “informação” e “conhecimento”. Informação é o acesso a um dado ou a um fato que muitas vezes encerra em si mesmo, no próprio veículo e conteúdo, ou seja, o informado consegue reproduzir o que soube. “Conhecimento” é um saber mais profundo e abrangente, não se encerra na informação adquirida, pois é relacionada a outras: não é aceita passivamente, porque foi analisada, confrontada, criticada. Mais que reproduzir, o conhecedor também é capaz de produzir informação e conhecimento.
 Também a Escola tem o papel de produzir e despertar conhecimento, sobretudo em uma sociedade da informação. Há muita informação disponível, mas algumas equivocadas e, numa relação quase circular (ou criando um quiasmo), é necessário conhecimento para distingui-las e distingui-las para ter conhecimento.

A palavra que se diz na prática


A PALAVRA QUE SE DIZ NA PRÁTICA

Muitas palavras,  segundo a Pragmática, ou seja, uso real e prático,  tem uma utilização diferente  do significado original e  etimológico,   ou pelo que seria o sentido mais perto do literal ou de um sinônimo (embora não exista sinônimo perfeito como demonstramos na coluna anterior). Muitas vezes, quando se diz algo é por que se acredita que o contrário, o não-dito evocado também exista,  mesmo que não seja de forma consciente, pois há opacidade pelo tempo ou  pelo uso pragmático,  como afirmamos no início desse artigo.

No contexto médico tenho, várias vezes, ouvido a indagação:   "Mas por que você?", como se houvesse um julgamento implícito, geralmente acompanhado da explicação "Você não merece!",  como se outras pessoas merecessem, e assim a doença fosse castigo/sentença e não uma questão biológica que nem sempre é consequência de uma atitude direta da pessoa acometida. Compreendo que a fala indica empatia por quem a ela é dirigida, mas não me deixa de ocorrer o pensamento: "Haverá sempre alguém que achará a doença injusta, pois, talvez, esse não seja o critério."

Há outras expressões até mais divertidas em um primeiro momento: hoje ser idoso tem como epíteto "melhor idade", mas não necessariamente seja,  pelo contrário, talvez seja uma associação, para não dizer "campanha discursiva", a justificar que a velhice tem sido saudável e, portanto, a aposentadoria deva ser adiada.

Outras questões, no entanto, nascem por retomar fatos históricos, levando a reflexões,  quiçá a debates e embates.  Além do restaurante chamado Senzala, alvo de críticas e vandalismo, há  um motel de mesmo nome,   que traz na caracterização dos tipos de quarto,  termos do contexto da escravidão aqui no país. Impossível não falar dessa página da história que se  reflete até hoje em preconceitos e conceitos e não pensar nos argumentos de quem quer amenizar o que houve,  descrevendo outros episódios de escravidão e até mesmo esclarecendo que os que aqui chegavam escravizados tinham sido vendidos por outros africanos,  como se essa ocorrência e a constatação de que o homem explícita ou implicitamente escraviza, cerceira,  subjuga o outro ser humano minimizasse o fato. Como sintetiza a expressão: "um erro não justifica o outro", ou seja, agir da mesma maneira, não anula o erro.

 Claro que tudo que é polêmico resgata dois preceitos que têm sido muito usados, cabendo neles várias conotações:  "liberdade de expressão" e seu quase antagonismo "politicamente correto". Tem sido muito difícil definir o que sejam, sem, paradoxalmente ferir a liberdade de expressão e o  politicamente correto!