sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A palavra que se diz na prática


A PALAVRA QUE SE DIZ NA PRÁTICA

Muitas palavras,  segundo a Pragmática, ou seja, uso real e prático,  tem uma utilização diferente  do significado original e  etimológico,   ou pelo que seria o sentido mais perto do literal ou de um sinônimo (embora não exista sinônimo perfeito como demonstramos na coluna anterior). Muitas vezes, quando se diz algo é por que se acredita que o contrário, o não-dito evocado também exista,  mesmo que não seja de forma consciente, pois há opacidade pelo tempo ou  pelo uso pragmático,  como afirmamos no início desse artigo.

No contexto médico tenho, várias vezes, ouvido a indagação:   "Mas por que você?", como se houvesse um julgamento implícito, geralmente acompanhado da explicação "Você não merece!",  como se outras pessoas merecessem, e assim a doença fosse castigo/sentença e não uma questão biológica que nem sempre é consequência de uma atitude direta da pessoa acometida. Compreendo que a fala indica empatia por quem a ela é dirigida, mas não me deixa de ocorrer o pensamento: "Haverá sempre alguém que achará a doença injusta, pois, talvez, esse não seja o critério."

Há outras expressões até mais divertidas em um primeiro momento: hoje ser idoso tem como epíteto "melhor idade", mas não necessariamente seja,  pelo contrário, talvez seja uma associação, para não dizer "campanha discursiva", a justificar que a velhice tem sido saudável e, portanto, a aposentadoria deva ser adiada.

Outras questões, no entanto, nascem por retomar fatos históricos, levando a reflexões,  quiçá a debates e embates.  Além do restaurante chamado Senzala, alvo de críticas e vandalismo, há  um motel de mesmo nome,   que traz na caracterização dos tipos de quarto,  termos do contexto da escravidão aqui no país. Impossível não falar dessa página da história que se  reflete até hoje em preconceitos e conceitos e não pensar nos argumentos de quem quer amenizar o que houve,  descrevendo outros episódios de escravidão e até mesmo esclarecendo que os que aqui chegavam escravizados tinham sido vendidos por outros africanos,  como se essa ocorrência e a constatação de que o homem explícita ou implicitamente escraviza, cerceira,  subjuga o outro ser humano minimizasse o fato. Como sintetiza a expressão: "um erro não justifica o outro", ou seja, agir da mesma maneira, não anula o erro.

 Claro que tudo que é polêmico resgata dois preceitos que têm sido muito usados, cabendo neles várias conotações:  "liberdade de expressão" e seu quase antagonismo "politicamente correto". Tem sido muito difícil definir o que sejam, sem, paradoxalmente ferir a liberdade de expressão e o  politicamente correto! 

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